Não as matem

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O assassinato de mulheres, pela própria condição de ser mulher, configura-se como fato recorrente. Lima Barreto (1891-1922), escritor brasileiro, romancista e cronista, preocupou-se em registrar os assassinatos de mulheres ocorridos no Rio de Janeiro, ainda em 1915. Na crônica “Não as matem” (Vida Urbana, 1915), Barreto clama que “esse obsoleto domínio à valentona, do homem sobre a mulher, é coisa tão horrorosa que enche de indignação” (...) “Não as matem, pelo amor de Deus!”. No México, Frida Kahlo (1907- 1954) também retratou os crimes na pintura Umas facadinhas de nada (Uns quantos piquettos, 1935), inspirada em uma notícia, na qual um homem bêbado jogou a namorada na cama e a apunhalou várias vezes. Quando interpelado pela polícia sobre o assassinato, teria respondido que foram apenas umas “facadinhas de nada”.


Na Argentina, o livro Garotas Mortas (2018) de Selva Almada poderia ser inserido nesse movimento de percepção e interpelação das motivações para esse tipo de crime. Nele, a autora aborda, a partir de suas memórias, três assassinatos impunes ocorridos na década de oitenta no interior do país.  Dentre os três casos relatados, outros são citados, demonstrando a especificidade dessas mortes: as vítimas eram todas mulheres, com menos de vinte anos.
A narrativa em primeira pessoa revela, inicialmente, como tais assassinatos se davam de modo corriqueiro, eram somente mais uma notícia no jornal, no rádio ou na televisão. No entanto, esses fatos se integram à memória da infância da autora, que cresceu na província de Entre Rios, longe do burburinho da grande Buenos Aires. Nesse ambiente aparentemente pacato, aos treze anos, a autora descobriu que uma mulher não estava segura. Dessa forma, aquilo que primeiramente parecia ser rotineiro adquiriu maior importância e transformou-se numa preocupação:
 Eu não sabia que uma mulher poderia ser morta pelo simples fato de ser mulher, mas tinha escutado histórias que, com o tempo, fui ligando umas às outras. Casos que não terminavam com a morte da mulher, mas em que ela era objeto da misoginia, do abuso, do desprezo.

As principais personagens dessas memórias de assassinato, Andrea DunniMaria Luísa Quevedo e Sarita Mundin, são jovens do interior e suas histórias reverberavam na mente da adolescente, que se tornaria escritora, como crimes não solucionados; contudo, a impunidade martelando a narrativa de Almada não apresenta uma suposta busca pela solução de tais homicídios ou punição dos agressores. A autora pretende entender a razão de tantas mulheres morrerem, pelo único fato de pertencerem ao sexo feminino, o que não foi uma tarefa fácil, dado que as mortes lhe chegavam como uma “revelação” da fragilidade desses corpos, desprezados, abusados e violentados. A condição de mulher se encontra, então, com a função da escrita não ficcional, como o registro de um tempo específico, a Argentina recém - egressa do período ditatorial e envolta num clima de tortura, assassinatos não solucionados e desaparecimentos.
Feminicídio, termo hoje recorrentemente utilizado para se referir aos crimes motivados pela misoginia, ainda não existia como conceito delimitador de uma categoria específica de assassinato. Porém, tanto na Argentina como em outros países da América Latina, bem como ao redor do mundo, o homicídio de mulheres foi e continua sendo uma constante que teve de ser contemplada em uma legislação específica, para que fosse registrado, punido e evitado. A principal questão que Selva Almada nos oferta em seu livro confronta-se com esse aspecto formal do problema, pois dar um nome e uma legislação que prevê o feminicídio como circunstância qualificadora do crime não é suficiente.
A pergunta também permanece martelando a leitora e o leitor. Desde o epílogo de Garotas Mortas há aquela revelação da fragilidade feminina que se manifestava numa posição social marginal, em um ser que poderia gritar, lutar e tentar sobreviver, mas acabava sendo aniquilado e esquecido, vítima da misoginia que matou no Rio de Janeiro de Lima Barreto e no México de Frida Kahlo. Retomando o trecho da poetisa argentina Susana Thénon, citado por Almada no epílogo, podemos dizer que a autora de Garotas Mortastomou para si a missão dar voz para as mulheres assassinadas que foram apagadas pela violência de seus assassinos: “essa mulher, por que grita?\vá lá saber\olha que flores bonitas\por que ela grita?\jacintos margaridas\por quê?\ por que o quê?\ por que grita essa mulher?”,

*Por Laila Correa e Silva, aluna de Estudos Literários do IEL/Unicamp

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