Tão insano que você quer ler
Tão insano quanto você é um livro do escritor estadunidense Todd
Hasak-Lowy que conta a história de Darren, um adolescente cujos pais acabaram
de passar pelo processo de divórcio. Apesar de o enredo parecer clichê,
sobretudo para uma obra dirigida ao público infanto-juvenil, esse livro está
longe de ser comum. Um de seus aspectos mais inovadores e intrigantes é a
estrutura: a narrativa inteira é feita por meio de mais de 350 listas. Tendo
apenas uma tradução no Brasil, de Alexandre Boide, o livro tão pouco convencional
e que recebeu opiniões tão díspares foi publicado em 2015 pela V&R
Editoras.
A narrativa é dividida em quatro
partes e cada uma delas se passa em um dia da vida de Darren. Por essa razão,
apesar das 641 páginas, a história é sucinta, as situações acontecem seguidas
umas das outras e o tempo – tanto no livro, quanto de leitura – passa rápido.
Além disso, o que poderia dificultar o entendimento dos acontecimentos é, na
verdade, o que torna a leitura tão interessante e fluida.
As listas são dispostas de modo a
substituir descrições convencionais e, dessa forma, elas permitem uma leitura
sob uma perspectiva completamente nova. O narrador em Tão insano quanto você não descreve a cena, mas enumera coisas –
objetos, pessoas, frases, entre outros elementos – a que o leitor deve dirigir
a sua atenção. Isso, por sua vez, torna o enredo e as imagens criadas pelo
texto surpreendentemente muito mais realistas. A narração é feita em terceira
pessoa, mas sob o ponto de vista do personagem principal.
Da mesma forma, a descrição de
cenários e a construção de personagens acontecem de maneira mais complexa do
que em um livro escrito em prosa convencional. Isso é possível, primeiramente,
devido ao caráter incompleto das informações. As listas são, em sua maioria, breves,
os elementos, evidentemente, estão em tópicos e não há encadeamento explícito
de ideias ou elementos textuais coesivos. Por essa razão, o leitor deve
preencher as lacunas de acordo com a própria percepção da história, a partir
dos sinais e dicas fornecidos.
Em segundo lugar, as informações
das listas nem sempre estão diretamente relacionadas a aspectos ou informações
indispensáveis para o desenvolvimento do enredo. Assim, há uma constante
alternância de foco durante a leitura, exigindo do leitor deter-se ora na trama
central e ora em elementos supérfluos, o que resulta em uma quantidade grande
de detalhes. Todos eles contribuem para o realismo das imagens formadas. Portanto,
a construção do livro a partir dessa estrutura torna a atmosfera narrativa muito
mais tridimensional do que a de outros livros em prosa simples.
As listas são reunidas para contar
a história de Darren e como, aos poucos, ele descobre quem é e como lidar com o
mundo a sua volta, que tão repentinamente mudou depois de seu pai revelar a ele
que é homossexual. Como muitos livros infanto-juvenis, os pais do personagem
principal se separam e o divórcio é o evento que impulsiona o início da
história. Além disso, o enredo, como também é comum nos livros desse gênero,
começa com a apresentação da rotina do protagonista a partir do momento em que
ela é quebrada. No entanto, Tão insano
quanto você surpreende o leitor com a sequência de acontecimentos e com o
final. Assim, o enredo que parecia inicialmente clichê e sem graça acaba por se
revelar completamente imprevisível.
A história se desenvolve a partir
da listagem de lugares, pessoas, frases, palavras, minutos, pensamentos,
objetos e mais elementos sobre as consequências da descoberta de Darren e como
ele acaba conhecendo uma garota misteriosa, intensa e incomum chamada Zoey
Lovell. A obra, que não é uma história de amor, suspense, superação, aventura
ou drama, mas sim uma mistura de tudo isso, também incita discussões sobre
(in)definição de identidade, distúrbios psicológicos, sexualidade, solidão,
diversos tipos de responsabilidade e desejo de transformação.
Esses assuntos, apesar de densos e
complicados, são abordados na narrativa de forma leve, mas não superficial. O
formato do livro contribui para esse desenvolvimento, concentrando longos
pensamentos em tópicos e simplificando-os. O título, por exemplo, constitui, no
texto, uma reflexão condensada sobre a percepção da identidade dos próprios
indivíduos e daqueles à sua volta. Além disso, retomando o aspecto realista e
tridimensional, a história não é concluída de modo a alcançar as expectativas
do leitor, ou seja, o tão superestimado final feliz não está presente e não há
resolução de todos os conflitos criados e desenvolvidos durante a narrativa.
Grandes veículos internacionais,
como a revista Publishers Weekly, elogiaram a obra, e tendo sido relacionada
pelo The Guardian ao sucesso internacional de John Green, Cidades de papel,
devido aos personagens e à condução inesperada dos fatos, Tão insano quanto você tem a própria identidade e é extremamente
convidativo a qualquer leitor atraído pelo não-convencional. Apesar de a
crítica brasileira não ter dado atenção ao livro e ele não ter recebido a
divulgação que deveria, não há dúvidas de seu valor e de sua relevância.

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