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Oficina: jornalismo do livro II

Blog dos alunos de Prática de Produção de Textos I do IEL/Unicamp


Cresce busca por serviços de apoio a refugiados em Campinas

A cifra de pessoas refugiadas ao redor do mundo chegou a 25,4 milhões, até junho deste ano, de acordo com o escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR). No Brasil, houve um aumento de 161% do número de solicitações de refúgio no primeiro quadrimestre deste ano, em comparação com o mesmo período no ano anterior, segundo dados obtidos pela GloboNews junto ao Ministério da Justiça por meio da Lei de Acesso à Informação. Três quartos dessas solicitações vieram de venezuelanos.
A solicitação de refúgio é uma forma de garantir o acesso a direitos fundamentais à pessoa que teve que fugir de seu país por ter sofrido violações graves de direitos humanos ou perseguição por motivos políticos, sociais, de nacionalidade, raça ou religião. De 2000 a 2016, segundo o Observatório das Migrações em São Paulo, na cidade de Campinas residiam 43 pessoas nessa condição. Com o agravamento da crise na Síria e na Venezuela, o mais provável é que essa cifra tenha aumentado.

Serviço de apoio municipal

O Serviço de Referência ao Imigrante, Refugiado e Apátrida da Prefeitura de Campinas foi criado em 2016, vinculado ao Departamento de Direitos Humanos da Secretaria Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência e Cidadania. É o órgão responsável por acolher e encaminhar aqueles que chegam ao município nessas condições, facilitando o acesso às políticas públicas. 
“A demanda aumentou muito nesse segundo semestre, absurdamente” conta Maria Valéria Scatolini Hernandez, psicóloga que atende no plantão do serviço. Este ano, cerca de 70 pessoas foram atendidas por mês entre junho e agosto. O número pode parecer baixo, mas representa um crescimento de mais de 400% em relação ao ano passado. De fato, conforme informações do portal G1, em 2017 o Serviço recebia em média 15 pessoas por mês, entre imigrantes, refugiados e solicitantes de refúgio.
A equipe do Serviço de Referência se resume a um par de funcionários. Maria Hernandez e o também psicólogo Dorival Guilherme desenvolvem ações de diversas naturezas a partir de parcerias e articulações com outros órgãos. Entre essas ações, estão a orientação e o acompanhamento para regularização da documentação; o encaminhamento para o acesso a programas sociais, como o Bolsa Família e a solicitação de abrigo junto ao Serviço de Apoio ao Migrante, Itinerante e Mendicante (SAMIM). Também é indicado o suporte jurídico oferecido por sindicatos, Defensoria Pública e delegacia de polícia para casos de exploração do trabalho, xenofobia e discriminação.
Em relação ao acesso a trabalho e renda, os imigrantes e refugiados são encaminhados ao Centro Público de Apoio ao Trabalhador (CPAT) assim como a instituições que oferecem capacitação profissional, como o SENAC e o CEPROCAMP. O ensino de língua portuguesa para estrangeiros tem sido viabilizado por meio de parcerias com a FUMEC, o SESC e um grupo voluntário de alunos da UNICAMP.
A sensibilização da opinião pública, assim como de instituições e empresas, é outra frente de ação do Serviço de Referência. Nesse âmbito, têm sido articuladas palestras em escolas, o suporte para exposições e eventos culturais diversos sobre a temática da imigração e do refúgio, assim como a sensibilização de empresas para a contratação de mão de obra imigrante. A interlocução com outros serviços da rede pública tem buscado facilitar as relações e o acolhimento dessas pessoas no que toca às dificuldades relativas ao idioma e às diversidades culturais.
O Serviço ainda está em interlocução com duas outras iniciativas de apoio às pessoas nessas condições que chegam à cidade de Campinas. A primeira delas, a Rede de Apoio ao Imigrante e Refugiado (RAIR), constituída por pessoas físicas, entidades civis e religiosas, surgiu em 2016 a partir de um fórum para discussão do fluxo migratório no município e da capacitação oferecida pelo próprio Serviço. Segundo Maria Hernandez, a Rede ainda está em processo de formalização por meio da constituição de um estatuto. A outra iniciativa de apoio está vinculada à Unicamp, a quem os dados colhidos pelo Serviço durante os atendimentos são repassados para subsidiar o desenvolvimento de pesquisas para a implantação de políticas públicas.

O papel da Universidade Estadual de Campinas

Em outubro do ano passado, a Unicamp oficializou sua adesão à Cátedra Sérgio Vieira de Mello, criada pelo ACNUR em 2003. Na mesma ocasião, aderiu ao Pacto Nacional Universitário pela Promoção do Respeito à Diversidade e da Cultura de Paz e Direitos Humanos, idealizado pelos Ministérios da Educação, da Justiça e Cidadania. Desde então, a universidade vem não só ampliando a produção científica e o oferecimento de disciplinas a respeito do tema, mas também, em parceria com a Prefeitura de Campinas, o ACNUR-Brasil e o Governo Federal, oferecem capacitação aos agentes envolvidos na recepção dos refugiados.
O ensino da língua portuguesa a estrangeiros foi crucial no início desta década, com a chegada dos estudantes haitianos, conta a professora Néri de Barros Almeida, coordenadora do Comitê Gestor do Pacto Nacional Universitário pela Promoção do Respeito à Diversidade e da Cultura de Paz e Direitos Humanos. No entanto, com a adesão à Cátedra, a Universidade tem oferecido o ensino da língua não apenas para alunos, mas também para imigrantes e refugiados.
Além de facilitar a validação de títulos de graduação e pós-graduação dessas pessoas, outra medida adotada pela instituição face ao cenário atual é facilitar o acesso de refugiados a vagas de estudo na graduação e pós-graduação da universidade, desde que os solicitantes tenham sido reconhecidos pelo Comitê Nacional para os Refugiados (CONARE).

Defasagem do Serviço Municipal

Uma parceria com representantes de Brasília e do ACNUR, envolvidos diretamente com o processo de acolhimento de venezuelanos, não pode ser firmada pelo fato de Campinas ainda não contar com um abrigo emergencial adequado a essas situações, posto que as instalações do SAMIM (Serviço de Apoio ao Migrante, Itinerante e Mendicante) são originalmente voltadas à outra população, onde a permanência é de curto período.
A disponibilização de um novo abrigo municipal é uma demanda recorrente, especialmente, por haitianos que, segundo Maria Hernández, “agora estão com dificuldade, devido à crise e o desemprego, de manter o aluguel”. A instalação, já com local definido, estaria em andamento, ainda que sem data prevista de conclusão. Mesmo assim, a inauguração do novo abrigo não significa que o município fará uma parceria para o acolhimento de refugiados da Venezuela, explica a psicóloga. 
  Por fim, outra insuficiência apontada por Maria Hernández se refere ao quadro de funcionários do Serviço. Atualmente o plantão de atendimento e acolhimento é realizado apenas pelos dois psicólogos. “Precisamos de um ou dois assistentes sociais”, revela, diante do aumento da demanda. “Estamos aguardando a chegada de alguns estagiários na área vindos pelo programa da prefeitura”, viabilizado através do Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE).

*Por Danilo Mendes Piaia, aluno de Estudos Literários do IEL/Unicamp

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Um sonho possível?  Editora Mulheres e o feminismo editorial no Brasil

A Editora Mulheres foi fundada em 1995 por iniciativa de três professoras aposentadas do curso de Letras da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Zahidé Lupinacci Muzart, Elvira Sponholz e Susana Funck, especialistas em autoria feminina e vinculadas à linha de pesquisa “Mulher e Literatura” da ANPOLL (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Letras e Linguística). O primeiro título do catálogo, publicado em outubro de 1996, Mulheres Ilustres do Brasil (1899), edição fac-símile, da escritora baiana Ignez Sabino (1853-1911), deixou patente o vínculo da editora à produção de autoria feminina brasileira do século XIX, bem como o compromisso com o resgate de nomes femininos na literatura nacional e internacional, que demonstra o papel crucial dessa editora para a circulação dessas obras, bem como para a promoção da igualdade de gênero. 
Embora a sua vida não tenha sido longa, com aproximadamente duas décadas de atividades, a casa editorial conseguiu resgatar nomes fundamentais da literatura feminina nacional e impulsionou uma série de pesquisas acadêmicas sobre a atuação das mulheres, em diversos campos das ciências humanas, lançando mais de 90 títulos desde a sua criação, esses livros tornaram-se raros e dificilmente encontrados em sebos e bibliotecas.
A dificuldade nos mostra a relevância desse projeto editorial e a importância que ele tenha continuidade para promover o desenvolvimento das pesquisas sobre história das mulheres e relações de gênero, como argumentam Gabriela Trevisan, mestranda em História Cultural na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e Luna Ribeiro Campos, doutoranda em Sociologia na mesma instituição, ambas dedicadas ao estudo de escritoras e pensadoras do século XIX, que evidenciaram o papel essencial dos títulos da Editora Mulheres para delinear as problemáticas de suas pesquisas, que apenas puderam se concretizar a partir do acesso às obras publicadas por Zahidé Muzart.
Para a historiadora Gabriela Trevisan, que estuda a escritora carioca Júlia Lopes de Almeida (1862-1934) “as publicações da Editora Mulheres são extremamente essenciais para minha pesquisa e para o resgate de diversas escritoras do século XIX”. Ademais, para Trevisan, Zahidé Muzart promoveu a circulação de muitas publicações conhecidas pelo público dos séculos XIX e início do XX, bem como obras póstumas não publicadas à época, que demonstram o trabalho de pesquisa de Zahidé Muzart.  Segundo a socióloga Luna Ribeiro, pesquisadora da trajetória e das obras da pensadora franco-peruana Flora Tristan (1803-1844), sua pesquisa de doutoramento apenas foi possível por conta da tradução do livro Peregrinações de uma pária, (2000), que teve sua primeira e única edição pela Editora Mulheres.
Segundo Zahidé Muzart, no artigo “Histórias da Editora Mulheres” (Revista Estudos Feministas, 2014), o grupo originalmente composto por três pesquisadoras “se dissolveu por razões várias e pessoais”, por isso, ela continuou sozinha na empreitada editorial cheia de percalços, tais como: a inexistência de reedições dos livros escritos no século XIX, a falta de verba, as dificuldades em atualizar a língua portuguesa, revisar e distribuir os títulos - considerando que a Editora Mulheres era uma micro editora com um catálogo altamente especializado.
O catálogo da editora reúne títulos sobre literatura de autoria feminina, história das mulheres e estudos de gênero. Esses livros são divididos em seis coleções: Romance; Poesia; Viagem; Cartas; Feministas; Ensaios; além de índices bibliográficos e obras de referência. Com o principal objetivo de resgatar a produção de escritoras brasileiras do século XIX e início do XX, a Editora Mulheres destacou-se reeditando romances de notáveis escritoras como Ignez Sabino (Lutas do Coração); Maria Benedicta Camara Bormann [Delia] (Aurélia, Duas Irmãs e Lésbia), Maria Firmina dos Reis (Úrsula), Emília Freitas (A Rainha do Ignoto), Carmem Dolores (A Luta), Julia Lopes de Almeida, (com dez títulos publicados), entre outras autoras nacionais e internacionais.
 Mesmo considerando sua alta importância e pioneirismo, a Editora Mulheres teve seu trabalho interrompido após a morte de Zahidé Muzart, em 2015. A doutora em Letras Valéria Andrade, Professora Adjunta do Centro de Desenvolvimento Sustentável do Semiárido da Universidade Federal de Campina Grande, que foi orientanda de Zahidé Muzart no início dos anos 1990, nos conta, emocionada, “a editora fechou suas portas após o falecimento da Zahidé, de tão saudosa memória, pois os familiares não se motivaram a dar continuidade ao sonho tornado verdade por ela. Uma lástima, para usar uma expressão bem dela quando se sentia triste por alguma situação mal conduzida e mal resultada”.
Ludmila de Souza Maia, doutora em História Social pela UNICAMP, e pela Rice University (2016), com estágio doutoral na École des Hautes Études en Sciences Sociales, Paris, França, pondera que os textos da Editora Mulheres foram fundamentais para o início de sua pesquisa de doutorado e “fizeram o diferencial para que eu conhecesse o campo de estudo de mulheres escritoras no país”. Maia também destaca a importância dos dicionários de escritoras do século XIX e XX publicados pela editora, que compõem fontes de referências riquíssimas para pesquisadores dessa área. 
No catálogo da Editora Mulheres, publicado em novembro de 2015, encontramos uma carta comovente, junto com um apelo: “Enquanto a dor não nos permite uma reflexão menos esmaecida sobre a Editora Zahidé (ou) a Zahidé Editora, ajudem-nos a perpetuá-la. Sim, a perpetuar a Zahidé Editora e a Editora Zahidé que, juntas, formam a Editora Mulheres”. Atualmente, alguns desses títulos editados por Zahidé Muzart encontram-se disponíveis em sebos espalhados pelo Brasil. O Sebo Cia do Saber, de Florianópolis, Santa Catarina, concentrou por aproximadamente dois anos, entre 2017 e 2018, os poucos livros restantes do acervo da Editora Mulheres. Todavia, o acesso aos parcos títulos ainda existentes é muito dificultoso, já que a maior parte está esgotada, como afirmam Luna Ribeiro e Gabriela Trevisan, que relatam a ausência desses títulos tão necessários às suas pesquisas.

Anna Faedrich, especialista em literatura brasileira e professora da Universidade Federal Fluminense (UFF), destaca a importância crucial da editora para o questionamento da formação de nosso cânone literário, notadamente masculino e questiona “A pergunta é: o que aconteceu com essas obras e com essas mulheres escritoras? Por que nunca tivemos acesso a essa produção literária? O que explica a repercussão e a visibilidade que elas tiveram à época, e o seu gradual desaparecimento?”. 
Para o desenvolvimento de suas pesquisas, que resultaram na publicação de dois volumes pela Gradiva Editorial, em parceria com a Fundação Biblioteca Nacional (Rio de Janeiro), Faedrich empreendeu um grande esforço de contato com familiares das escritoras Narcisa Amália (1856-1924) e Albertina Bertha de Lafayette Stockler (1880-1953), demonstrando a necessidade de subterfúgios para suprir a ausência de edições dos livros escritos por essas autoras, que sofreram o processo de apagamento da história literária nacional: “Em relação às oitocentistas, muito do material que consegui foi graças ao contato com a família. No caso da Albertina Bertha, foi sua bisneta, Beth Stockler, quem me abriu as portas, no sentido de disponibilizar obras raras da autora, como é o caso dos livros Estudos, 1ª série (1920), e Estudos, 2ª série (1948).” Para os estudos sobre Narcisa Amália, a pesquisadora teve contato com sua bisneta Nilza Ericson, até o momento desconhecida pelos biógrafos da poeta.  O breve relato de Faedrich nos dá uma amostra dos desafios encontrados pelas pesquisadoras dedicadas às escritoras brasileiras do século XIX, aumentando nossa admiração e profundo respeito pelo trabalho de Muzart e o significado político, social e cultural da Editora Mulheres.
Contudo, após a edição dessas duas obras organizadas por Anna Faedrich (a publicação do romance de Albertina Bertha, Exaltação em 2015 e o livro de poesias Nebulosas, de Narcisa Amália, em 2017), a Gradiva Editorial não continuou com a série dedicada à escrita de autoria feminina, apesar do trabalho de alta qualidade e importância realizado pela pesquisadora: “Como reeditei dois livros (Albertina Bertha e Narcisa Amália) pela Gradiva Editorial, sondei a possibilidade de a editora dar continuidade ao projeto de Zahidé. Entretanto, o perfil da editora é outro”.
Infelizmente, não encontramos no Brasil uma editora que se equipare ao trabalho outrora realizado por Zahidé Muzart. Notadamente, ainda que possam existir alguns títulos sobre autoria feminina, feminismo e gênero, dispersos em catálogos de outras editoras, não há o compromisso expresso com o feminismo editorial praticado pela Editora Mulheres e Zahidé Muzart, promovendo a circulação de pesquisas de suma importância para o avanço e divulgação desses temas no Brasil.
Valéria Andrade, dedicada ao estudo da produção teatral de brasileiras do século XIX, como Josephina Alvares de Azevedo (1851-1913) e Maria Angélica Ribeiro (1829-1880) abordadas nos títulos da Editora Mulheres, Índice de Dramaturgas Brasileiras do Século XIX (1996) e O Florete e a Máscara: Josefina Álvares de Azevedo, dramaturga do século XIX (2001), exemplifica esse ponto ao afirmar a imensa importância da Editora Mulheres para a promoção da circulação de suas pesquisas  sobre as mulheres que se dedicaram à escrita teatral no século XIX brasileiro e, acrescenta,  “se não resultou em impactos mais significativos, terá sido pelas contingências discriminatórias ainda incontornáveis do nosso mercado editorial.”
Há uma grande lacuna e um saldo negativo para muitas pesquisadoras dedicadas à literatura de autoria feminina, à história das mulheres e à questão de gênero no país diante da ausência de editoras especializadas na temática. Diante disso, quais seriam as alternativas?  
Ludmila Maia lança a hipótese de que: “a UFSC e sua editora poderiam assumir o projeto da Editora Mulheres, embora, na situação atual, isso parece bem difícil dada a escassez de recursos e a falta de vontade política. Contudo, a UFSC seria a mais indicada devido a solidez da área de estudos de gênero que possuem.”  Anna Faedrich defende uma ação coletiva, ao declarar que poderíamos promover, em conjunto, algo mais democrático, com acesso livre e on-line o que se mostra interessante e promissor, ao alimentar-se de um feminismo editorial democrático. Sua proposta seria organizar um projeto para digitalizar essas obras que já se encontram em domínio público e revela: “Estamos – Laila Correa e Silva [doutoranda em História Social na UNICAMP], Gabriela Trevisan, Juliana Santos [doutora em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, UFRGS] e eu – sondando a viabilidade disso. É importante que os leitores não tenham dificuldades em encontrar essas obras, que elas não se tornem “obras raras”, e que elas possam, aos poucos, ir ganhando espaço nos meios oficiais (aulas de literatura, livros didáticos de literatura, histórias da literatura, dissertações e teses, etc)”.  
Esse parece ter sido o propósito original de Zahidé Muzart e seu legado precisa ter continuidade, de alguma forma, como revelou Anna Faedrich e todas as pesquisadoras e professoras mencionadas que se dedicam ao estudo da escrita de autoria feminina no século XIX e pretendem, com o seu trabalho, lançar luz sobre a agência de mulheres escritoras, pensadoras e precursoras de um legado cultural, político e social que se perpetuou para além do século XIX.
  

*Por Laila Correia e Silva, doutoranda em História Social e aluna de Estudos Literários do IEL/Unicamp
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Riobaldo entre as veredas da filosofia e da poesia

Quem já assistiu ao programa “Ensaio”, da TV Cultura, certamente notou o modo peculiar como acontece o diálogo entre o entrevistador e o artista convidado. O telespectador não ouve as perguntas do entrevistador, mas pode inferi-las pelas respostas do entrevistado, de modo que a conversa se aproxima mais de um monólogo do que de um diálogo.
Algo análogo acontece em Grande Sertão: Veredas (1956), do escritor mineiro João Guimarães Rosa. No livro, o narrador-personagem, o ex-jagunço Riobaldo, conta sua vida a um viajante que está de passagem pela sua fazenda sobre as questões que o preocupam como, por exemplo, a existência ou não do diabo, as manifestações no espírito humano do bem e do mal, a força do amor e do ódio. A vida do personagem é contada com muitos detalhes e muitas indagações filosóficas - em forma de aforismos. O lema cartesiano da dúvida transforma-se em “Quem desconfia, fica sábio” (p 122), na linguagem sertaneja de Riobaldo.

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O leitor que não está acostumado com o estilo do autor terá dificuldade em mergulhar no romance. Sua linguagem pode ser considerada, pois, um amálgama de regionalismo (a história se passa no norte de Minas Gerais e Sul da Bahia) com neologismos. Algo parecido ocorre em Sagarana, livro de estreia do autor. Nele, o próprio título é a junção de Saga (uma história contada) com o sufixo tupi –rana (que significa “o que poderia ser verdadeiro”).
Além da linguagem difícil, outro obstáculo para leitura do romance é o seu aspecto digressivo. Como se quisesse certificar-se da atenção do ouvinte, o narrador vai e vem em sua narrativa. Até que chega na cena da travessia do Rio São Francisco, na página 92. Nesse trecho, ele lembra de um importante acontecimento de sua infância, quando pedia esmola no porto para cumprir a promessa que sua mãe fizera. Nesse dia, ele conheceu um menino que marcou para sempre a sua vida. Esse menino era o Reinaldo, que anos mais tarde pedirá para o amigo chamá-lo de Diadorim, quando os dois, já adultos, estivessem a sós. Depois desse episódio o romance ganha maior linearidade, ainda que conserve um pouco de digressão. 

A partir daí, poderemos acompanhar uma mudança brusca que aconteceu na vida do protagonista ainda criança: a morte de sua mãe. Será depois de perdê-la que ele vai morar com o padrinho, Selorico Mendes, onde recebe as primeiras instruções:


Tive mestre, Mestre Lucas, no Curralinho, decorei gramática, as operações, regra-de-três, até geografia e estudo pátrio. Em folhas grandes de papel, com capricho tracei bonitos mapas. (Pág.24)

O sertanejo é, portanto, um homem letrado. Ao longo do romance faz perguntas de cunho existencialista, ao modo de um filósofo. Provoca o interlocutor com suas ideias sofisticadas: “O senhor concedendo, eu digo: para pensar longe, sou cão mestre - o senhor solte em minha frente uma ideia ligeira, e eu rastreio essa por fundo de todos os matos, amém! ”. (Pág. 25)
Em um determinado momento, o jagunço lê o livro Saint-Clair das Ilhas, obra que na literatura brasileira aparece sendo lida por personagens de outros autores, por exemplo, em Quincas Borba, de Machado de Assis. (Meyer, 1998). Além do ensino elementar que tivera, portanto, o narrador também era dado à leitura de clássicos:

O dono do sítio, que não sabia ler nem escrever, assim mesmo possuía um livro, capeado em couro, que se chamava o “Senclér das Ilhas”, e que pedi para deletrear nos meus descansos. Foi o primeiro desses que encontrei, de romance, porque antes eu só tinha conhecido livros de estudo. Nele achei outras verdades, muito extraordinárias. (Pág.312)

Sempre atento aos detalhes de sua vida, Riobaldo repensa nos principais episódios da sua vida e sempre tirar novas conclusões acerca de questões que o incomodam. Ele tenta chegar ao significado de cada coisa. O narrador se questiona sobre o fatalismo, por exemplo, e se ele e Diadorim nasceram para matar a personagem Hermógenes. Além disso, ele narra toda sua vida para perguntar ao interlocutor o que ele acha disso tudo; se acha que o diabo existe mesmo e, uma vez existindo, se ele próprio, de fato fez um pacto. Pergunta que ele mesmo responde na última página:

Amável o senhor me ouviu, minha ideia confirmou: que o Diabo não existe. Pois não? O senhor é um homem soberano, circunspecto. Amigos somos. Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se for… Existe é homem humano. Travessia. (Pág. 492)      

Além de filósofo, o nosso narrador também é poeta. Ao longo do livro, aparece muitas vezes uma canção que ele ouviu na noite em que, na casa do padrinho, viu pela primeira vez um bando de jagunços. Essa canção ficou em sua memória para sempre. Ele a chama “Canção de Siruiz”. Riobaldo explica o alumbramento que ela despertou em seu ser

O que me agradava era recordar aquela cantiga, estúrdia, que reinou para mim no meio da madrugada, ah, sim. Simples digo ao senhor: aquilo molhou minha ideia. Aire, me adoçou tanto, que dei para inventar, de espírito, versos naquelas qualidades. Fiz muito, montão. (Pág.109)

Ao longo do romance aparecem muitos versos, uns de própria autoria de Riobaldo, outros que ele ouviu durante a sua vida e nunca mais esqueceu. O narrador relembra algumas ocasiões que surgiram os versos e, ao modo dos rapsodos, recita-os para seu ouvinte:


Hei-de às armas, fechei trato
nas veredas com o Cão.
Hei-de amor em seus destinos
conforme o sim pelo não

Em tempo de vaquejada
todo gado é barbatão:
deu doidera na boiada
soltaram o Rei do Sertão….

Travessia dos Gerais
tudo com armas na mão…
O Sertão é a sombra minha
e o rei dele é o Capitão (Pág. 378)

Não surpreende que Riobaldo seja um poeta cheio de lirismo. O próprio Guimarães Rosa publicou uma coletânea de versos, “Magma”, com a qual ganhou o prêmio “Academia Brasileira de Letras”, em 1936. E a poesia em “Grande Sertão: Veredas” não está somente na  forma de versos. A linguagem de todo o livro é extremamente poética. Se ela parece um empecilho no começo do livro, ao longo da sua leitura se torna seu maior prazer. Um exercício interessante para perceber a sonoridade do romance seria a leitura em voz alta, de modo que o aspecto oral da obra ficaria enfatizado. É como o narrador fala: “a verdade não está nem na saída, nem na chegada: ela se dispõe para a gente é na travessia”. É um livro para ler e reler várias vezes, a cada nova leitura o leitor pode se encantar com a beleza do universo rosiano.






























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Joyce por inteiro: 
Caetano Galindo conversa sobre a nova tradução de Dublinenses, seus próximos projetos e o panorama cultural-literário brasileiro

A nova edição de Dublinenses, da Companhia das Letras, é mais um passo no projeto de tradução completa da obra de James Joyce pelo escritor e professor Caetano Galindo, da Universidade Federal do Paraná. Depois de verter para o português Ulysses, o livro mais famoso do autor irlandês, em tradução premiada com o Jabuti 2013, ele continua a aumentar o seu legado joyceano. O próximo desafio deverá ser traduzir Finnegans Wake, a obra mais ambiciosa de Joyce, considerado por muitos estudiosos como intraduzível, por apresentar palavras que misturam diversos idiomas, neologismos e trocadilhos. “Se eu tenho que aprender a ‘ler’ aquele livro, imagine ‘traduzir’!”, brinca Galindo, em entrevista concedida ao blog.


Munida de um rico aparato crítico, a tradução de Dublinenses confere aos leitores de língua portuguesa a oportunidade de vivenciar a Dublin do final do século XIX e do começo do século XX, encarnada nos 15 contos que compõem o livro. Isso além de permitir observar, por meio de seus personagens, algumas das grandes questões do comportamento Humano, “com maiúscula mesmo”, como Galindo afirma.  Apesar do livro ser considerado o mais acessível do autor irlandês, ele abriga “o trecho de tradução em prosa que mais deu trabalho” até agora na carreira de Galindo. 
Mas as dificuldades não parecer assustar o professor da federal do Paraná, responsável por traduzir outros autores considerados “espinhosos”, como David Foster Wallace e Thomas Pynchon. Junto com o seu irmão, Rogério Galindo, ele também foi finalista do Prêmio Jabuti de 2016, com a tradução de Ossos de Eco, de Samuel Beckett (Biblioteca Azul, 2015). Além disso, seu livro de contos, Ensaios sobre o Entendimento Humano (Biblioteca Paraná, 2013), venceu o Prêmio Paraná de Literatura no ano de sua publicação. 

Em que medida o cotejo com as demais traduções de Dublinenses influenciou os caminhos tomados nesta nova? O que a distingue das anteriores?
Olha. Muito pouco. Eu tenho lá no fundo da memória a lembrança do efeito geral que me causou a tradução do Hamilton Trevisan. Quantos? Vinte e cinco anos atrás? Mas na verdade não me dediquei a cotejo e não consultei traduções mais recentes. Eu tenho também algum contato com a segunda tradução do José Roberto O’Shea, que consultei para preparar aulas logo depois de seu lançamento. Mas, de novo, na hora de sentar para trabalhar, eu quase intencionalmente abro os olhos só para o original e para as minhas escolhas. Até por isso, deixo para os leitores dizerem o que a minha tradução tem de diferente. No entanto, ela tem um aparato crítico maior que o das outras, com notas de rodapé, prefácio, cronologia do autor e da obra… E, de minha parte, posso dizer que ela contém, na sua última página, o trecho de tradução de prosa que me deu mais trabalho, e com o qual me detive mais longamente na minha carreira.

Traduzir e estudar Joyce também é traduzir e estudar a Irlanda. Como é sua relação com a cultura e a história irlandesas?
Ela me veio em grande medida como você descreveu na pergunta. Através da obra de Joyce. Foi sempre ele que me levou a querer estudar mais, conhecer o processo da luta pela independência, me familiarizar com a história de Parnell [Charles Parnell, importante figura política de ascendência irlandesa do século XIX], com os conflitos religiosos… Alguém criado, como eu, no fim dos anos 70 e nos anos 80, tinha, claro, certa familiaridade com a disputa entre católicos e protestantes, com a ação do IRA, através do cinema e mesmo da televisão. Mas meu envolvimento maior se deve todo a Joyce. Mesmo na única vez em que eu estive em Dublin (em 2004) eu me sentia muito mais visitando o cenário de um livro do que uma cidade…

De que maneira o panorama político, religioso e social da Dublin de Joyce pode ser relevante aos leitores brasileiros do século XXI?
Não sei se terá grandes ressonâncias diretas, nem se deveria. Grandes livros partem por vezes de coisas muito pontuais, muito historicamente demarcadas em uma dada sociedade, em um dado contexto. Mas o que de fato os tornou grandes, e garante sua repercussão imediata, tende a ser o quanto eles conseguiram extrair de humanamente mais amplo, mais profundo, de cada uma dessas questões. É daí que surge a tão comentada “universalidade” dos clássicos. Mais do que Parnell, o que se discute é a figura do líder, a figura do homem falível, do homem traído, por exemplo. Eu não preciso ser príncipe herdeiro usurpado num reino escandinavo para me identificar com os problemas de Hamlet! O interesse de Joyce sempre foi Humano, com maiúscula mesmo. Quando falava da história colonial da Irlanda ou da masturbação de um adolescente pernóstico. E, para quem sabe ler, esse interesse garante uma afinidade muito grande daqueles livros com a gente, com o nosso tempo, com qualquer tempo.

Você termina a nota do tradutor em Dublinenses com uma proposição: “vamos ao projeto Finnegans Wake”. O que a imensidão deste desafio representa na sua carreira e nos paradigmas da obra joyceana?
Na minha carreira seria uma espécie de... (tenho até receio de dizer) culminação? Seria uma espécie de passo mais largo e definitivo. Para a obra joyceana, significa pouco. Para a recepção de Joyce no Brasil tem lá seu peso, afinal, seria a possibilidade de o leitor acessar toda a obra publicada de Joyce  na tradução de uma mesma pessoa (devo ainda no começo de 2019 entregar à editora minha tradução de Exiles e dos dois livros de poemas de Joyce), seguindo um mesmo “projeto”…

E para a tradução em si, o que esta empreitada representaria?
Para a tradução em si a coisa é bem mais complicada. O Finnegans Wake é não só um livro estranho, mas, insisto em dizer, um livro que cria novas e inesperadas maneiras de ser estranho. Sem querer alongar demais essa resposta, basta dizer que o livro, em seus momentos mais típicos, raramente “quer dizer” alguma coisa. Suas palavras, suas frases criam possibilidades de leitura (algumas jamais suspeitadas por Joyce, inclusive) sem necessariamente determinar qual delas é central. Não é nada infrequente que alguém que leia o Wake, e se sinta profundamente emocionado por alguma passagem, possa dizer mais ou menos bem o que está acontecendo ali, mas não consiga parafrasear, não possa repetir o que o texto “disse”. Porque ele não “disse” de fato aquelas coisas. Ele as fez existir como possibilidades… Estranho, né? Mas extremamente poderoso. E como traduzir uma coisa que os falantes “nativos” não sabem nem concordar se quer dizer A, B ou BA? Como criar algo que “corresponda” a um texto tão inapreensível quanto por vezes é o texto do Wake?
A parte mais difícil (e a que toma mais tempo) para se ler o Wake é determinar o que o verbo “ler” vai querer dizer ali para aquele livro. Porque não vai ser a mesma coisa dos outros livros que você leu na vida. Não vai dar para passar os olhos de uma palavra para outra e ir entendendo, e por vezes voltando para entender um trecho mais denso… Se você tentar fazer isso, vai enlouquecer antes da quarta página.
E se eu tenho que aprender a “ler” aquele livro, imagine “traduzir”!

Também pensa em escrever um livro guia para o Finnegans Wake, assim como fez em Sim, eu digo sim (Companhia das Letras, 2016), no qual conduziu o leitor por cada parte de Ulysses?
Olha… pode ser sim. Seria a cereja.

Em outras entrevistas, você já mencionou preferir traduções menos focadas na “fidelidade lexical” ao texto original e mais vinculadas à “adaptação semântica” entre os contextos linguísticos. Neste sentido, a criatividade também se faz premente para o tradutor. Como conciliar técnica e inventividade?
A palavra “fidelidade”, especialmente, é um verdadeiro campo minado. O que quer dizer “fidelidade lexical”? Palavra por palavra? Traduzir “black eye” por “olho roxo” é fiel, apesar de black querer dizer preto? Desde os primeiros textos que refletiram sobre tradução no Ocidente (desde a antiguidade latina), os autores sabem que não existe tradução palavra por palavra. Ela é um objetivo que apenas os leigos defendem. Ou julgam defender. Porque mesmo em situações em que algo assim seria possível, eles acabariam preferindo os resultados de um processo mais “holístico”, que encare os enunciados como unidade, e não as palavras. “Adaptação” é outra palavra perigosa. E tende a ser um limite que, como tradutores, nós precisamos evitar. Como diz o grande Paulo Henriques Britto, o objetivo da tradução é permitir que o leitor que conheça o original e a tradução declare que os dois são a mesma coisa. Ou, melhor ainda, que permita que o leitor da tradução diga, sem mentir, que leu o original. Como quando eu afirmo que li A história de Genji, apesar de não saber nem decifrar a escrita japonesa.

Como alcançar esse efeito?
Essa é a grande fidelidade que o tradutor deve ao autor, à obra original, aos seus editores, aos seus leitores e a si próprio. Produzir essa mágica maluca de um texto novo, num contexto inesperado, que se afirma como “vernáculo” (no nosso caso, como brasileiro) ao mesmo tempo em que sustenta essa sensação de dar a ler um original anterior.
E para obter esse efeito é necessária uma grande dose de criatividade, sim. E ela decorre de uma responsabilidade. Eu preciso dar “vida” ao texto original. Preciso conferir beleza, efeito literário, conforme ele solicite a cada dado momento. E a única maneira de eu simultaneamente estar à altura dessa tarefa e me colocar humildemente em relação a ela é dar o que eu tenho de melhor. É fazer o possível para dar de novo essa vida ao original. E isso demanda invenção, jogo de cintura, flexibilidade, domínio da língua, da tradição e dos recursos de criação. É essa a criatividade que eu e qualquer tradutor literário defendemos. Em nome daquela fidelidade.

Ouve-se muitos pesquisadores apontando a dificuldade de se conseguir financiamento em áreas de pouco impacto mercadológico. Qual é a sua visão sobre o cenário atual das pesquisas na área de tradução?
Não sei se essa pergunta foi elaborada antes ou depois do resultado das eleições presidenciais. Agora, consumado o fato, só posso dizer que o panorama para toda a área de pesquisa é obscuro. E que as humanas hão de sofrer os cortes mais pesados, num governo que se elegeu já colocando professores, intelectuais e escritores não apenas sob suspeita, mas no lugar do “inimigo”. Só posso imaginar tempos muito ruins para toda a nossa área, que, ao mesmo tempo, será relevante e necessária como nunca.

Um fenômeno recente é a proliferação de leitores comentando literatura nas novas mídias sociais, como o YouTube e o Instagram. Há a polêmica de que os booktubers não são aptos a falar sobre literatura, principalmente a respeito dos clássicos. Por outro lado, muitos consideram importante essa democratização dos espaços, apostando ainda que isso pode ser um incentivo para que se leia mais. Qual é o seu posicionamento sobre o tema?
Eu acho sempre bom que se fale de literatura. Tenho pouco contato com os tais booktubers, mas já vi coisas boas, coisas sólidas e coisas mais leves e “irresponsáveis” (no melhor sentido). Livros têm que ser lidos. E comentados. Inclusive os clássicos. Nada, portanto, contra a existência do fenômeno.

Haveria um lado negativo nesse fenômeno?
O problema, se problema existe, é o mesmo de outras áreas, no que se refere à bolha virtual versus o mundo do papel. O problema é quando essa fonte de informação passa a ser única e definitiva. Porque, pela sua própria natureza, ela tende a ser mais leve, mais superficial. Ela é, afinal, ou pretende ser, uma empreitada comercial. E conta com um lapso de atenção bem mais reduzido de parte de seu público. Não dá para fazer grandes ensaios densos e descomprometidos nessas condições. Mesmo que as pessoas possam, e queiram. E essas abordagens mais densas têm de existir, ainda que para um público menor.
Acho que o que a gente está vendo é um aumento do leitorado, sim, que toma a forma da boa e velha curva de sino, e então o aumento no “meio” é muito maior, e parece afogar as margens… Mas as margens (a literatura “para poucos”, por exemplo) continuam lá. E talvez deva ser mesmo assim. Mas, reafirmo, se um carinha ou uma menina de 16 anos quiser fazer um vídeo de 20 minutos sobre sua leitura de Guerra e Paz, eu, de minha parte, aplaudo. 

Em um texto publicado no seu blog no site da Companhia das Letras, intitulado O fim?, você escreve palavras duras sobre o momento atual. Entretanto, termina-o com um fio de esperança. O que esperar deste futuro governo como escritor, tradutor e professor?
Acho que já disse acima. Espero repressão da diversidade de pensamento. Espero policiamento direto e terceirizado, realizado pelas multidões de minions radicalizados e, agora, empoderados. Espero corte de verbas. Espero até ações mais diretas contra colegas. Meu irmão, jornalista marcadamente “de esquerda”, acaba de ser demitido depois de publicar um texto incisivo. Espero mais demissões, espero perseguições. Espero que a gente saia dessa de pé. Espero que os intelectuais, apesar de sob intenso ataque agora, mantenham a mente ativa e consigam ajudar o país a superar essa sua crise… Espero…


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Encarcerados (2018), de John Scalzi, tem a sua narrativa policial nos moldes já conhecidos de Agatha Christie e Sherlock Holmes; o agente e seu parceiro desvendando o mistério, e a busca incessante pelo assassino a partir das evidências encontradas. Mas a obra surpreende ao inserir a investigação do crime em um mundo futurista, sobrepondo, ou até mesmo mesclando, ficção científica e trama policial.

Repleto de robôs e armas tecnológicas, em teoria o universo do romance é mais avançado, porém, econômica e socialmente, mais injusto e desigual. Essa característica permite ainda que o autor encaminhe a história para o subgênero cyberpunk, conhecido por tratar de um mundo altamente tecnológico, mas com pouca qualidade de vida para determinados povos não abastados. O enredo se desenrola a partir de um crime ocorrido em um quarto de hotel. O suposto ator do assassinato está junto da vítima, mas afirma não se lembrar do que aconteceu. Uma equipe de investigadores (Chris Shane e Leslie Vann) é chamada para acompanhar o caso, julgando se foi homicídio ou tentativa de suicídio incriminatória. 

Para a criação de seu livro, John Scalzi inventou uma doença que se assemelha a uma gripe altamente nociva, a qual ataca o cérebro, forçando a sua transferência para um robô. Os corpos reais quase inutilizados dos afetados ficam encarcerados (“Lock In”, do título original em inglês) ou em berços fechados, sob os cuidados de pessoas saudáveis. Os infectados são conhecidos por Hadens, os quais, paralelamente à narrativa do crime, reivindicam seus direitos.

Pela recorrência do tema do confinamento, o leitor sente a necessidade de refletir sobre os diversos tipos de “prisão”. Tanto aquela tratada na realidade ficcional do livro, quanto o aprisionamento sofrido por muitos no mundo real. Este, aliás, se mostra injusto aos marginalizados, pois há poucas políticas de inclusão, e elas são falhas, resultando em enclausuramento involuntário daqueles que mais precisam de apoio. Por exemplo, muitos portadores de deficiências físicas sofrem limitações e confinamentos pela falta de estruturas sociais e políticas interessadas em seus direitos de vida. Os Hadens podem ser lidos aqui também como deficientes marginalizados pela sociedade, encarcerados pelo sistema científico e político mundial.

De sua obra socialmente engajada, torna-se possível analisar do mesmo modo, por intermédio da escrita do autor, sua bagagem cultural. Também em um de seus últimos livros publicados, Redshirts (2012), é perceptível o uso de várias referências à cultura de massa e a filmes de sucesso. Alusões a Star Wars (1977) e até mesmo as típicas piadas sobre o FBI aumentam o interesse do público pela sua obra, além de suavizar a história.

As escolhas narrativas se mostram certeiras na elaboração dos perfis bastante diversos no vasto “elenco” do livro. É demonstrado interesse pelos marginalizados, frequentemente esquecidos nas obras de ficção científica ou até mesmo nas policiais. Há personagens indígenas norte-americanos, casais homossexuais e também mulheres inspiradoras. Relevante ressaltar como é bem medido o grau de favoritismo entre Chris, o narrador, e Vann. Pois esta é extremamente relevante para todo o arco do livro, já que além de ter um ótimo cargo, o de chefe, é astuta e a voz da razão. Nesse ponto, é inevitável não lembrar Mad Max: A Estrada da Fúria (2015), o qual foi aclamado por dar força às figuras femininas e por lutar contra o machismo atrelado aos filmes de ação. Tanto a obra cinematográfica quanto a literária apresentam protagonismo masculino, porém as mulheres se mostram muito mais interessantes ao espectador, por estarem focalizadas, ou seja, sendo ativas nas narrativas. E também são dadas a elas as cenas com peso emocional.

Provavelmente por trabalhar como crítico do meio do cinema, Scalzi, em diversas passagens, utiliza frases de efeitos e recursos que aproximam o romance da linguagem cinematográfica. O tom subjetivo aparece em alguns trechos, por meio de ações que mesclam realidade e imaginário. O filme Gabinete do Dr. Galigari (1920) compreende cenas com a finalidade de confundir o espectador; nele, não há clareza sobre se o que é mostrado retrata a maldade de Caligari ou se são apenas devaneios de Cesare, o protagonista. O uso de alguns bordões como alívio cômico, revistos e revisitados em todas as produções sobre super-heróis atualmente, também está presente. Além disso, muitos fragmentos do romance parecem ter sido escritos já pensando em uma adaptação para o cinema. Há, por exemplo, o emprego da progressão da montagem norte-americana nas cenas de ação, como os cortes rápidos, utilizados em momentos de frenesi. O autor lança mão também de lutas coreografadas, as quais, narrativamente, já formulam na cabeça do leitor como poderiam ser executadas, lembrando os grandiosos embates nos dois filmes de Kill Bill (2004), ou nas produções estreladas por Jackie Chan.

Apesar da ótima construção literária, o autor peca nas páginas finais, acelerando demais a narrativa, até então apresentada de forma lenta e gradativa. O final do romance é satisfatório, porém o aumento da velocidade no desfecho da trama passa a impressão de que o autor foi pressionado pela editora para lançar seu livro o mais rápido possível. Vencedor dos prêmios Hugo e Locus Awards, John Scalzi mostra mais uma vez, com Encarcerados, por que é considerado um dos grandes escritores de ficção científica atualmente. A obra, que já se tornou best-seller, ganhou uma continuação: escrita e lançada este ano nos Estados Unidos com o título de Head On, ela ainda não tem lançamento previsto no Brasil.


*Por José Henrique Tobias Pereira 
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Explicando Tolkien, de Ronald Kyrmse, é o livro indicado para todo amante da obra do escritor de O Senhor dos Anéis (1954-1955). O autor reuniu em uma única produção toda a informação necessária para que o leitor iniciante seja capaz de compreender o processo de criação de um universo fantástico, em especial o criado por Tolkien. 

Kyrmse deixa claro, desde as primeiras páginas, seu apreço pela construção do Mundo de Arda. Por isso, neste exemplar, sempre se destacam os pontos fortes dessa composição, como a estruturação linguística e imagética do cenário, e as dimensões, que Kyrmse afirma serem três: diversidade, profundidade e tempo. Sobre diversidade, ele fala da variedade de raças, vocabulário, gramática e fonologia. Já sobre profundidade, destaca as lendas de cada povo, costumes, geologia e vestimentas, por serem aspectos minimamente detalhados. Sobre a dimensão do tempo, explica que todo cenário descrito por Tolkien não está lá apenas como obstáculo ou vista admirável. O rio, colina ou floresta que aparece em O Senhor dos Anéis está em Silmarillion (1977), assim como em outros livros, constituindo a história daquele local e marcando a cronologia de suas obras, por isso “é complexo o ‘ofício’ do autor que pretende convencer-nos da realidade” (p. 23). Foi preciso que Tolkien passasse inúmeras noites em claro fazendo revisões, lutando para “autenticar” seu mundo. Essas três dimensões, complexas e diferentes entre si, são o que confere à criação de Tolkien uma maior semelhança com o nosso mundo primário de todos os tempos.
Após mais de vinte anos de pesquisa, lendo e relendo O Hobbit (1937), O Senhor dos Anéis e Silmarillion, entre outras obras, Kyrmse sintetizou em 180 páginas vários fatores que tornaram possíveis a existência do Mundo de Arda. Por meio de Explicando Tolkien, o leitor entra em contato com várias facetas da vida do escritor que influenciaram sua produção, como a sua educação em colégios religiosos, a sua vida acadêmica, a sua carreira, seus trabalhos que foram rejeitados e até mesmo as suas relações amorosas. Além da vasta pesquisa realizada por Kyrmse, temos ainda acesso às cartas deixadas por Tolkien, várias delas sobre sua criação linguística e sua opinião a respeito da própria obra.
A habilidade de criar línguas complexas, com fonologia e gramática particulares, é o maior destaque presente nas obras de Tolkien. O Quenya (alto élfico) e o Sindarin (élfico cinzento) são as duas línguas mais bem definidas, tendo como base o finlandês e o galês, respectivamente. Outras línguas estão presentes em suas histórias, no entanto poucos registros são apresentados na obra ou nas cartas do autor. Por isso, uma parte do livro de Kyrmse é dedicada especialmente à apresentação dessas línguas com grafia e pronúncia próprias.
C. S. Lewis, autor de As Crônicas de Nárnia (7 vols. 1950-1956), foi um dos grandes amigos de Tolkien, tendo sido inclusive o primeiro a resenhar O Hobbit. Muitos chegaram a comparar a produção de ambos, e de fato sabemos que existiu certa competição, se não atrito, entre os companheiros literários. Embora esta amizade não seja o foco do livro, Lewis não deixa de ser citado. Desse modo, aprendemos que o amigo foi muitas vezes o único ouvinte e crítico durante a criação de O Senhor dos Anéis. E mais: Tolkien não era recíproco na crítica ao trabalho de Lewis, deixando em cartas que nunca fora fã das “alegorias” religiosas.
Outro ponto abordado no livro é a dificuldade da tradução da obra de Tolkien. O próprio Kyrmse foi revisor e consultor das traduções brasileiras de O Senhor dos Anéis, O Hobbit e Silmarillion, além de ter traduzido Contos Inacabados (2002):
 A tradução da obra tolkieniana é imprecisa como todas, e talvez mais difícil do que muitas. Vêm sempre à mente as famosas palavras traduttore, traditore (“tradutor, traidor”). Mas o caminho é pelo menos abrandado pelas orientações que o próprio autor nos legou. (p. 161)

O mais incrível do trabalho de Kyrmse não está nos fatos que ele expõe, mas na vida dedicada ao estudo de Tolkien. Graças a esse empenho, o autor conseguiu descrever a complexidade da criação da linguagem, da fauna, da flora, dos costumes, dos calendários, da disposição geográfica, da passagem do tempo e de muito mais que foi elaborado pelo escritor.
 Desde 2001 fomos agraciados com a melhor versão adaptada dos filmes da trilogia do Anel. A adaptação dirigida por Peter Jackson, também grande fã de Tolkien, é comentada por Kyrmse, que analisa as diferenças entre os livros e os filmes, assim como descreve os defeitos e qualidades das adaptações mais antigas. Sem dúvida, o autor sabe direcionar o leitor para todas as dificuldades de um processo criativo e artístico: o filme não é o livro.
Mais do que tudo, este trabalho existe não apenas para saciar a sede de conhecimento sobre a criação do Mundo Secundário, a metodologia e a mitologia. Mas para que cada vez mais leitores busquem os livros de Tolkien, vejam os filmes e entrem em contato principalmente com O Senhor dos Anéis, o best-seller que, de acordo com Kyrmse, vendeu menos apenas que a Bíblia.


*Por Heloiza Lopes de Oliveira
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