Entre as vítimas há carrascos

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O controverso Caderno de Memórias Coloniais de Isabela Figueiredo, lançado em 2009, se destaca na figura da narradora: Isabela, autora que narra, e Isabela, personagem que é narrada. A estrutura exprime o pensamento de uma criança e como a mulher adulta foi formada a partir de sua infância. Atraindo grande público em terras lusitanas e em Moçambique, a obra gerou polêmicos debates em seu lançamento, rompendo um acordo de silêncio entre os retornados em Portugal.

O livro foi visto como uma traição, uma mentira contada por uma branca ignorante de classe baixa. Já aqueles que ouviram e aceitaram a narrativa reconheceram em suas palavras um relato da violência racial na Moçambique pré-independência, sobre a qual existia um consenso de ignorância e segredo: “ninguém sabe de nada, ninguém fala nada”. Essas vozes silenciadas tinham intenção de atacar somente os colonizados; durante a colonização e até além, houve o acolhimento de ideias racistas, associando com frequência a imagem do negro ao selvagem. Com a independência, a concepção de que os portugueses eram inocentes, grandes vítimas de selvagerias da parte dos negros colonizados, era aceita e disseminada pelos colonizadores que retornavam à Portugal. 
Jornalista, professora e escritora, Isabela Figueiredo nasceu em Lourenço Marques (atual Maputo), capital colonial de Moçambique. Aos doze anos mudou-se para Portugal, logo após a independência do país, em 1975. Sua mudança ocorreu em consequência dos ataques sofridos pelos colonos remanescentes e seus filhos. Era uma retornada, nome dado aos portugueses que voltaram à Europa após a independência, fugindo da “vingança dos colonizados”.
O texto transcende as questões imperialistas de colono/colonizado. Aprofundando-se na narrativa, descobre-se também um relato de amor indestrutível da filha pelo pai machista e racista, um amor que reconhece defeitos e permanece filial. É uma obra sobre uma criança descobrindo corpos; o seu próprio e os dos outros. Figueiredo escreve sobre uma menina de infância interrompida e que de repente se torna mulher, um meio encontrado para sua sobrevivência quando retorna a Portugal, que já não mais existia do modo que o pai conheceu.
A figura paterna, esmagadoramente presente, é retratada como a de um homem de seu tempo, “tão racista como os que eram racistas, e eram muitos, na metrópole no ultramar” (p.12). Na condição de colono, era preconceituoso e cruel. Como pai, entendia que a filha merecia e necessitava de liberdade acima de todas as coisas, não desejando que ela dependesse de alguém para sobreviver.
Figueiredo representa na narrativa a figura masculina de toda uma sociedade colonial, utilizando como recurso o próprio pai e homens colonizados que conheceu. Na introdução da obra, escrita pela autora moçambicana Paulina Chiziane e pelo filósofo português José Gil, diz-se que “o colonialismo é masculino” (p.17), baseado intimamente em uma figura patriarcal católica. Enquanto isso, a África é sempre referida como mãe, mulher. Uma mulher agredida e invadida. A história oficial do colonialismo de Portugal é um território masculino: do “bom colonizador”, aquele que foi mais brando, gentil se comparado a outras potências imperialistas, tais como as violentas Inglaterra, Bélgica e França, e o outro lado, dos colonizados, brutos e violentos. As vozes ouvidas dessa sociedade, sejam as reprimidas ou opressoras, pertencem aos homens. Dessa forma, a autora quebra o segundo contrato de silêncio, a repressão do lugar de fala feminino. As vozes mais profundas do texto de Isabela Figueiredo pertencem às mulheres silenciadas, excluídas e oprimidas. Brancas ou pretas, sem direito à sua voz e à sua sexualidade. Isabela tem força em seu discurso e em nenhum momento tenta se apropriar da fala que não lhe pertence. É branca, filha de portugueses racistas. Soube identificar a injustiça e a violência sofrida pelo colonizado, tendo sido rotulada como traidora por expô-la.
Caderno de Memórias Coloniais é sobre ambos os lados do colonialismo em Moçambique: sobre os colonizados, e sobre Isabela e os retornados. O retornado é um indivíduo sem lar; embora “colono”, já não pertencia mais a Portugal nem a Moçambique. Em uma tentativa de fugir do cenário de vida miserável destinado aos colonos (agora sem seus privilégios e extremamente mal vistos) após a guerra de independência, Isabela é mandada para Portugal na intenção de recomeçar. Ao chegar, é humilhada pelas cores vibrantes de suas roupas, como se fosse uma figura cômica, uma palhaça. A menina se incomoda com a figura de toda a cidade e da Metrópole: suja, feia, pálida e gelada, tão diferente de sua terra doce, Lourenço Marques, que ardia.  

Isabela, personagem e escritora, era uma menina vista pela própria família e vizinhos com uma “alma de preta”, associando-a às meninas pretas que corriam mais livres que um filho de colonizador. Tal quadro aparece no desconforto da mãe, sempre vestindo-a de branco, numa necessidade de nunca se sujar: “uma branca de branco, agarrada à saia que não pode sujar, olhando os sapatos brancos que não podem empoar” (p.156). Destoando de seu ciclo social (mulheres brancas de família, criadas para serem comedidas e para o casamento), ela foi classificada como inferior, algo que a perseguiu até a vida adulta: “A partir de certa idade, muito cedo na infância já somos nós, o que há de perseguir-nos sempre” (p.160).

Antes de a obra ser publicada, era habitual que se defendesse a ideia do “bom colonizador”. Em Moçambique, o colono teria sido brando e justo, tendo grande importância na formação da nação. Com a independência, a selvageria havia voltado, cabeças eram decapitadas e bons brancos de família, caçados. Do outro lado, uma nova versão tentava ganhar legitimidade: os horrores do colonialismo e todo o mal que este trouxe.

Em Caderno de Memórias Coloniais, Isabela Figueiredo exprime o feio de ambos os lados da colonização, em uma postura de compromisso com a realidade. O conflito nasce daqueles que adotam apenas uma versão dos fatos, o que, dentre os retornados e colonizados recém independentes, representava grande maioria.

A autora explica a razão do acordo de silêncio entre os retornados: presos em sua própria ideologia, nenhum admite a presença de qualquer outra verdade. É conveniente assumir que existe apenas um vilão na história. Para que conseguissem prosseguir sem culpa, os retornados edificaram uma mentira, algo que os permitisse continuar. Ao final da obra, a escritora retornada, detentora de rara consciência, conclui: “Há tantas vítimas entre os inocentes-inocentes como entre os inocentes-culpados. Há vítimas-vítimas e vítimas-culpadas. Entre as vítimas há carrascos” (p.172).

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