Saber e não saber, estar e não estar

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“Porque assim deve ser. Um dia você entenderá.” Essas são palavras que Ana escutou de sua avó e que se repetem em sua cabeça. Ouvir isso, porém, não é um privilégio dessa menina: quem nunca passou por situação parecida quando criança? Em “Ana”, um dos oito contos da coletânea A vida naquela hora (2011), João Anzanello Carrascoza parece brincar, de modo sensível, com a infância e a ignorância, com a ausência e a presença. Afinal, seria mesmo uma benção a ignorância? E a infância, um período de ouro em nossas vidas? O que não conseguimos enxergar está mesmo ausente?

Saber e não saber

“Oh, que saudades que tenho / Da aurora da minha vida / Da minha infância querida / Que os anos não trazem mais”. Esses conhecidos versos de Casimiro de Abreu talvez resumam bem uma forma corriqueira (ao menos contemporânea e ocidental) de compreender a infância como um período áureo da vida, alegre, saudoso. No entanto, essa noção não é unanimidade e é possível que Lewis Carroll tenha sido um dos primeiros a romper com a idealização da infância na literatura. Ele tratava as crianças de igual para igual, não queria lhes ensinar uma lição de moral e levava em consideração os sofrimentos presentes na passagem da infância para a vida adulta. Carroll ria, junto de Alice, dos absurdos presentes no mundo dos adultos (talvez um mundo não tão maravilhoso assim). 

Um pouco mais tarde, Henry James, em Pelos olhos de Maisie (1897), adotou uma postura semelhante à do criador de Alice no país das maravilhas (1865) em relação à infância. Ele representou uma menina (não mais criança, mas ainda não adulta) tentando entender o que se passava ao seu redor, sendo carregada de um lado a outro no meio do divórcio de seus pais e de seus interesses conflitantes. Abordando um tema tão (ou mais) delicado quanto o divórcio – a morte , o conto “Ana” parece pertencer a essa tradição de generosidade com as crianças, de respeito aos conflitos do amadurecimento, às dificuldades de não se compreender o que acontece.

A protagonista do conto, uma menina de onze anos, está viajando pela primeira vez de trem com seus pais. Acompanhamos alguns minutos dessa viagem de três horas. O motivo é uma repentina doença de sua avó, mãe de sua mãe; “venham urgente, o caso é grave”, isso é tudo o que sabem seus pais. Já Ana apenas “sabe que algo se passou com a avó na noite passada, mas ignora o conteúdo preciso da palavra UTI, pelo menos no despontar dessa manhã; talvez à tarde possa descobri-lo, quando chegarem a Sacramento”. 

Nesse cenário, com descrições poeticamente precisas e diálogos breves, Carrascoza vai mostrando as tentativas da garota de entender os acontecimentos ao seu redor. Talvez um adulto sinta mais empatia por essa situação em que se sabe pouco sobre o rumo das coisas quando vê o narrador, em um ato perspicaz, focalizando a mãe de Ana nessa condição: “A mãe perdeu a paciência, é um martírio viajar tantas horas com uma má notícia, e quando só se sabe do problema umas poucas palavras, Venham urgente, o caso é grave, na imaginação vai se desenhando um desfecho nem sempre igual ao da realidade. Os nervos fervilham, impossível manter a calma”. Ao vermos um adulto sofrer com a incerteza dessa forma talvez nos aproximemos um pouco do que as crianças muito frequentemente sofrem – ainda que tornar-se adulto não sugira uma superação de momentos como esses, mas possivelmente a capacidade de agir em cenários de vulnerabilidade.

Estar e não estar

            Um tema posteriormente desenvolvido por João Anzanello Carrascoza, em seu romance Caderno de um ausente (2014), também pode ser percebido em um tratamento delicado nessa breve narrativa sobre a vida (de Ana) naquela hora: a ausência e a presença.

A família está fisicamente confinada em um espaço fechado, mas também em movimento, que chacoalha: o trem. No entanto, eles estão e não estão nesse trem. Os pensamentos da mãe de Ana se voltam para sua mãe no hospital. O pai da garota também se preocupa com a situação da sogra e “mastiga o constrangimento” causado pelo nervosismo da esposa, sem paciência para um aparente estranhamento da filha. 

Ana recorda momentos passados com a avó, que até se misturam com as situações do seu presente: “– Vó Maria vai sarar logo, mãe? / – Se Deus quiser, filha... / – Não haverá de ser nada. / – Demora muito pra chegar, pai? / – Já-já estamos lá, Ana. / – Eu queria bolo de chocolate. / – Eu faço pra você...” O pedido do bolo é lembrança de uma solicitação feita à avó, que não está no trem, mas talvez esteja mais presente que os outros três membros da família. 

E, assim, Carrascoza nos lembra, de modo delicado, que o invisível não significa ausência: “o vagão oscilante com o movimento do trem está inundado de sol e, a essa hora, não podemos Contar estrelas, como falava Vó Maria, é impossível vê-las, mesmo sabendo que estão no céu, cintilando”.

*Por Laís Souza Toledo Pereira, aluna de Estudos Literários do IEL/Unicamp

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