O que a vida aparenta ser e o que ela de fato é
“Na parede há um
buraco branco, o espelho. É uma armadilha. Sei que vou cair nela (...)
Aproximo-me e olho para ela: já não posso mais ir”, diz Sartre num dos
primeiros capítulos de “A Náusea” (1938). Como no romance sartriano, Marçal
Aquino impõe ao seu conto “A família no espelho da sala”, da coletânea
“Famílias terrivelmente felizes” (Cosac Naify, 2003), um clima angustiante para
examinar o ser humano. Desta forma, o escritor nos entrega um cenário desolador
que reflete um lado incômodo e irremediável da existência.
O conto é
dividido em onze pequenos trechos, nos quais o narrador-personagem intercala
seus dramas particulares com o relato cru e poético da vida de sua família.
“Viver não permite escolhas”, diz-lhe certa vez um amigo, e o sentido da frase
ecoa por todos os episódios apresentados.
Numa casa onde os
pais sempre economizaram carinho aos filhos, tragédias são inevitáveis. A
negligência, por sua vez, parece consequência dos conflitos do
casal, que sofre com a indiferença mútua e a busca tola por um sentimento
primitivo entre os dois que já não existe mais.
O narrador,
aparentemente imune aos males do ambiente familiar, encontra sua angústia
particular fora de casa. Em seu emprego como jornalista na redação de um
jornal, assistimos ao que parece ser a situação de todos ali; afundados na
correria de seus trabalhos, ele e seus colegas acabam deixando diariamente a
vida passar sem lhe dar atenção.
Conversando com
um amigo, ele revela, além do mal-estar com o emprego, certa dificuldade amorosa.
Sua insatisfação é ilustrada em seguida, quando ele relata o encontro com uma
garota de programa e a conversa com outra mulher no saguão do aeroporto.
Ao terminar, o
narrador cita a fala de um professor: “(...) no Brasil há um sentimento de
decepção, mas não há uma grande decepção, uma decepção dramática”. Assim como a
frase de seu amigo, essa também diz muito respeito ao que é relatado. O
sentimento de insatisfação é geral, mas permanece velado, silencioso, não
escapa de dentro dos indivíduos e, deste modo, escala e corrói pouco a pouco
suas vidas.
Embora algumas de
suas linhas de diálogo pareçam fabricadas, a escrita de Aquino carrega o leitor
com facilidade pela narrativa. A divisão do conto em pequenas partes torna a
leitura dinâmica e fluida. O uso de imagens é raro, mas certeiro, como na
comparação dos filhos com um jogo de louças: “Como se os filhos fizessem parte de um jogo de louças somente usado
quando havia visitas em casa (...) Mas acho que a louça manuseada com tanto
zelo ocultava sob o pó acumulado os arranhões, disfarçava as trincas” (pp
33-34). No mais, a leitura não apenas desse conto, mas de toda a coletânea de
que faz parte, mostra-se um rico exercício de reflexão e atenção para o lugar
que ocupamos na sociedade, e para o que a vida aparenta ser e o que ela de fato
é.

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