Existe ser mulher?

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O poema a mulher é uma construção, de Angélica Freitas, faz parte do livro um útero é do tamanho de um punho (2012), e sua composição possui uma linguagem irônica, quase intuitiva – é direta, realista, porém metafórica. Os versos apresentam grande complexidade tanto formal quanto a nível de seu conteúdo e de potencial reflexivo.


A composição poética é feita a partir da afirmação de que a mulher é uma construção. Analisando sintaticamente, vê-se que “uma construção” está exercendo a função de predicativo do sujeito de “mulher”. Isso torna-se relevante, na medida em que se compreende que construção é uma palavra dotada de polissemia: sendo um substantivo derivado de um verbo, pode assumir tanto uma significação mais próxima do resultado – a construção, o edifício –, ou de um processo:  em construção, em processo de.


A partir disso, é criada uma tensão entre diferentes vozes que habitam um único discurso e que dão o tom irônico e incomodante ao poema. Ao mesmo tempo em que está presente um discurso estagnador, homogeneizador e objetificador da figura da mulher. Existe aquele que aponta a impossibilidade disso ocorrer reivindicando o lugar de sujeito da pessoa nascida sob o signo de mulher.


Assumindo a primeira acepção da palavra – a construção – a mulher adquire a faceta de algo estanque, pronto e acabado; o eu-lírico afirma: “a mulher basicamente é para ser/um conjunto habitacional/tudo igual/tudo rebocado” (p.45). Ser mulher é necessariamente ser algo edificado por alguém, vazia de conteúdo próprio. Sobre isso, o toque de homogeneização conferido ao resultado da ação de construir uma personalidade chama a atenção: todas as mulheres são iguais – “só muda a cor” (p.45). Aqui, a superficialidade que é conferida ao ser mulher fica explícita.


Atentando-se com maior cuidado ao excerto, porém, tem-se uma unidade de sentido que chama atenção: “é para ser” – ou seja, a mulher é para ser algo que, no entanto, não é. Ao longo do poema, o status transitório de ser mulher aparece com maior realce, ainda que permaneça quase escondido.


Com isso, tem-se uma segunda interpretação de construção, que seria a noção de processo, transformação. Logo, há uma segunda voz: aquela que aponta a impossibilidade de considerar mulher um objeto pronto, massificado e mercantilizável. Isso fica evidente no seguinte excerto: “você é mulher/e se de repente acorda binária e azul/e passa o dia ligando e desligando a luz?” (p.45). Ou seja, dentro daquilo que é esperado por uma pessoa construída enquanto mulher existe subjetividade, existe algo de vivo que pulsa e que se desenvolve, algo que irá escapar às regras.


Seguindo essa mesma linha, temos o ponto de tensão máxima entre os dois discursos: “a mulher é uma construção/com buracos demais/vaza” (p.45). Há algo de inapreensível no sujeito – algo que incomoda, que não cabe. Por conta disso, a mulher deve usar “rebocos”, “maquiagens” para camuflar possíveis desvios daquilo que lhe é esperado – deve se comportar e parecer ser mulher.


Nisso, vê-se explicitado o momento de inconformidade entre a tentativa de conceber a construção quando ela está em construção. Isto é, ainda que exista o empenho de reduzir um indivíduo complexo e completo a uma definição (pronta e estanque), ela será pouca: ser mulher é ser algo a mais do que uma construção – é estar em movimento contínuo. Esse aspecto fica mais claro quando se compreende a função sintática de predicativo do sujeito: ele marca uma característica do sujeito, que pode ser transitória. Logo, se mulher for considerada uma construção acabada, é algo passageiro, superficial – existe uma dimensão profunda atuando; se mulher for considerada de-vir de algo, assume-se com maior pujança que ser mulher não é algo que caiba em uma única palavra ou definição universalizante. 


A partir dessas reflexões, o poema apresenta uma conclusão fulminante: “neste ponto, já é tarde/as psicólogas do café freud/se olham e sorriem/nada vai mudar/nada nunca vai mudar/ a mulher é uma construção” (p.46). Ela representa uma situação inconciliável e quase cínica entre a mulher e o “mundo”.


           A inquietude e o estranhamento causados têm um motivo: existe uma confluência de vozes em uma única que aponta para dois possíveis sentidos. Por um viés, tem-se um tom mais derrotista, afirmando que a mulher é exclusivamente um objeto construído pela estrutura social – isso nunca vai mudar. Só o fato de o indivíduo sentir-se mulher já representa um triunfo de um movimento reducionista e socializador da cultura. Por outro, tem-se que, estando a mulher em construção, está em permanente mudança. Não será abarcada nunca por uma única definição. Além disso, pode ela – enquanto sujeito – construir-se. E, apesar de todas as tentativas no plano simbólico ou objetivo de simplificar, homogeneizar, reificar e mercantilizar, existem caminhos para a resistência.


           Com tudo isso, o poema a mulher é uma construção, por meio de construções sintáticas e escolhas lexicais elaboradas, permite que se questione o lugar social e cultural ocupado pelas mulheres. Que, sendo fruto de um processo de construção, não são figuras estanques, mas, sim, complexas e profundas. As diversas vozes presentes no poema e que estão em constante diálogo – convergindo na voz do eu-lírico – apresentam essa situação dual e conflitante que é ser mulher. E que ao final apontam para uma problemática: existe ser mulher?

*Por Carolina Jacomini, aluna de Estudos Literários do IEL/Unicamp

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