O abismo da rotina
Rubens é a típica crônica que, por sua profunda potencialidade temática, poderia desembocar em um eventual conto, novela ou até mesmo romance. Como é comum ao gênero, o aspecto lacônico das circunstâncias narradas transparece na efemeridade de episódios rotineiros. Entretanto, os fatos, se analisados a posteriori, desvelam raízes abissais. Estes significados se refletem, por exemplo, nas características dos “copos de uísque” pedidos no bar pelo protagonista do texto.
“Tinha pouca gente no bar quando entrou. Ele sentou numa banqueta do bar, sorriu para o barman e pediu:
— Dois uísques.
— Dois?
— Um puro, com gelo, para mim, outro com soda para o Rubens.
O barman sorriu.
— O Rubens vai chegar depois?
— O Rubens está aqui do meu lado.”
Assim, Luis Fernando Verissimo inicia a prosa que, ao lado das outras novas comédias da vida privada (L&PM, 1997), une em um pequeno espaço o humor e a crítica social. O copo de uísque “puro e com gelo” ilustra a persona social, moldada sob o crivo vertical da moral vigente, cujo “gelo”, como um iceberg, tem à superfície somente uma ínfima parte de seu corpo, ao passo que sua matéria sólida se dissolve na água, como “o sólido se desmancha no ar”. Em contraponto, o copo pedido para seu amigo “invisível” — seu “eu” subjugado — não é puro e nem tem gelo, mas é misturado com soda. Essa mistura atenua o gosto forte do uísque na mesma medida em que o títere social arrefece sua autoconsciência e não percebe que se “embriaga” com os paradigmas estabelecidos pelo senso comum.
A dinâmica simbólico-alegórica se desdobra no diálogo do cliente com o barman, este um possível esboço do “the Man” — expressão usual para se referir à ideia de autoridade — que lhe serve as “bebidas”, ou seja, suas próprias “vidas” moldadas pelos grilhões do sistema. O “Homem” potentado também se reverbera na letra da música cantarolada por Rubens, "Conceição", de Cauby Peixoto, na qual uma mulher é convencida por “alguém” a sair do morro para tentar a vida na cidade, sob a esperança de mudar de vida.
Quantos inebriados “invisíveis” como Rubens, banhados pela força de seu âmago, não cantarolam e dialogam em bares por várias esquinas do mundo? O crítico literário Jorge de Sá, em A crônica, descreveu essa força dialógica encarnada na prosa das crônicas, que transita entre o coloquial e o literário: “Com o seu toque de lirismo reflexivo, o cronista capta esse instante brevíssimo que também faz parte da condição humana e lhe confere (ou lhe devolve) a dignidade de um núcleo estruturante de outros núcleos, transformando a simples situação no diálogo sobre a complexidade das nossas dores e alegrias”.
Muito dessas relações metafóricas e algo holísticas de Rubens também pode ser achado na novela Noite, de seu pai Érico Verissimo, na qual um bar é um dos pontos de partida de uma jornada notívaga de alto teor alegórico que transporta à terceira dimensão os traumas “invisíveis” do protagonista desconhecido. Nesta crônica aqui analisada, porém, o uísque puro com gelo e o misturado com soda seriam um desdobramento mais social do ideal do eu e de suas ânsias recalcadas.
Todavia, a temática seria mais magnética ao leitor, no que tange à dimensão fruitiva e reflexiva, se os problemas do protagonista fossem mais explorados na narrativa. Também, a proposta irônico-realista que perpassa as demais crônicas do autor poderia se concretizar com mais afinco se as metáforas basilares do texto, os copos de uísque, fossem desenvolvidas mais explicitamente.
Em suma, como a considerável produção cronista de Verissimo, esta crônica diz muito em pouco espaço, embebida de humor e fina ironia. Mas, avultando-se entre as outras, carrega uma densidade potencial ímpar, que não negaria a Rubens o protagonismo de um elaborado romance, no qual desvelar-se-iam os icebergs da rotina.
*Lucas Toledo, aluno de Estudos Literários do IEL/Unicamp

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