Mercado de romances em língua portuguesa vem aumentando no Brasil, mas ainda não tem expressividade
O Brasil, de acordo com o Global Publishing Monitor, ocupa o 13° lugar no
ranking dos maiores mercados literário do mundo. Uma pesquisa feita pelo Ibope
em 2015 mostrou que a média de brasileiros considerados leitores é de 56%, consumindo,
aproximadamente, 4,96 livros por ano. Grande parte dos títulos de romance lidos
são traduções, a maioria do inglês, mas, ainda que em menor escala, o
brasileiro também está habituado a se aventurar em publicações em língua
portuguesa.
O fato de brasileiros lerem, sim,
romances em língua portuguesa não significa que o mercado nacional consuma
literaturas de todos os países e culturas com os quais compartilhamos a nossa língua.
Analisando as listas de romances mais vendidos no Brasil nos últimos oito anos na
Publishnews, revista digital responsável por divulgar notícias acerca do
meio editorial do Brasil e do mundo, apenas um livro de língua portuguesa não
nacional esteve entre os vinte mais vendidos do país: Mulheres de cinzas,
do autor moçambicano Mia Couto.
Atualmente, algumas editoras
brasileiras se dedicam a publicar literaturas em língua portuguesa não
nacionais. Este é o caso da Kapulana, especializada em literaturas africanas, e
da Pallas, voltada para literatura e cultura afrodescendente. Apesar de ambas
as editoras possuírem um catálogo rico, elas ainda não têm representatividade forte
o suficiente para que esse nicho literário se torne expressivo no cenário
brasileiro. Uma das barreiras para a consolidação desse mercado poderia ser o
preconceito, mas esse não parece ser o caso.
De acordo com Rosana Morais Weg,
diretora e fundadora da Kapulana, a procura
por esse por esse tipo de literatura parece ser maior do que a oferta, pois há
todo um trabalho de divulgação de livros africanos no Brasil em escolas,
centros culturais, feiras literárias, entre outros espaços. Além disso,
completa Rosana, uma vez no mercado, livros de língua portuguesa de origem
africana costumam ser recebidos de forma acolhedora. No entanto, o caminho que
percorrem até as mãos do leitor consiste num processo longo e caro. Assim, apesar
da boa recepção, eles ainda não seriam comprados em um volume suficiente para
que valha a pena, para as editoras e livrarias, imprimi-los, transportá-los e
consigná-los.
Fundada recentemente, em 2012, a
Kapulana ainda tem poucos títulos do gênero romance em seu catálogo, formado
sobretudo por obras de poesia, contos e literatura infantil. Mais tradicional,
a Pallas, criada em 1975, já possui um catálogo mais amplo de romances em
língua portuguesa. De acordo com Mariana Warth, dona da editora, o mercado de
romances em língua portuguesa está se profissionalizando e vem, pouco a pouco,
aumentando. No site da Amazon, por exemplo, a editora tem 27 títulos à venda. Já
na Estante Virtual, esse número sobe para 90.
Por
enquanto, porém, ainda é difícil perceber o crescimento dessa literatura no
cenário editorial nacional. Se observamos a Companhia das Letras, por exemplo, editora
que ocupa um lugar de peso no mercado de livros brasileiro, os números não são muitos
diferente daqueles encontrados na Publishnews. Dos 1.783 romances do
catálogo atual da editora, 13 são de Moçambique, 4 de Angola e 54 de Portugal,
o que só representa 3,9% das publicações. Já ao analisarmos o número de
publicações por ano é possível perceber que ele não se altera
significativamente, variando de três a seis lançamentos, com exceção de 2016, ano
em que os direitos autorais do escritor Mia Couto foram comprados.
Além disso, se procurarmos livros de
outros países, além de Brasil, Portugal, Angola e Moçambique, o número de lançamentos
é praticamente nulo. Ao todo, nove países possuem o português como língua
oficial, mas esses quatro países dominam o cenário das publicações. Desse modo,
segundo conclui Mariana Warth, os outros participantes da Comunidade dos Países
de Língua Portuguesa (CPLP) “não estão muito bem representados aqui no Brasil na área da literatura”.
Observa-se que, fora
do Brasil, o cenário não é muito diferente. A representação das
literaturas em língua portuguesa se mostra presente em feiras internacionais de
livros, como a de Frankfurt, mas, mesmo assim, em 2017 o estande reservado a
uma editora angolana foi cancelado na última hora e foi identificada no evento
a ausência de outros países luso-africanos. Entretanto, alguns avanços foram
feitos. A editora Cabo-Verdiana esteve presente na feira este anos através do
convite da editora Rosa de Porcelana. Esse convite se deve, em parte, ao fato
de o autor Germano de Almeida ter conquistado o Prêmio Camões 2018. Além disso,
o país também é conhecido por ser o anfitrião da sede do Instituto
Internacional de Língua Portuguesa (IILP).
Algumas medidas foram tomadas na
tentativa de transformar a língua portuguesa num espaço de conexão entre as
culturas dos seus países falantes. Uma delas foi o Acordo Ortográfico da Língua
Portuguesa, adotado em janeiro de 2009 por quatro países (Brasil, Portugal,
Cabo Verde e São Tomé e Príncipe). O principal objetivo do acordo era unificar
a grafia da língua portuguesa, impulsionando a
difusão cultural, a divulgação de informações e as relações comerciais entre os
países. Moçambique e Angola, apesar de ficarem atrás somente de Portugal
em número de publicações no Brasil, não participaram do acordo.
Outra medida de relevância foi a
criação de um órgão no governo português chamado Direção-Geral Do Livro, Dos
Artigos e das Bibliotecas (DGLAB). Criado em 2007 com o intuito de expandir o
mercado literário no país e em todo o mundo, a Direção-Geral promove prêmios
literários, editoração de títulos e difusão da literatura, tanto em Portugal
como internacionalmente. Dessa forma, ele se tornou, para a editora Mariana
Warth, “uma porta, que se abriu para
conhecer melhor os autores de nosso tempo em língua portuguesa”.
Ao se tratar de medidas especificamente
brasileiras, temos a promulgação da lei 11.645 de 10 de março de 2003
(modificada em 2008) que dita a obrigatoriedade de conteúdos referentes à história e à cultura afro-brasileira e dos povos
indígenas brasileiros nos currículos escolares, principalmente nas áreas de artes, literatura
e história brasileiras. Caso fosse aplicada
de forma efetiva, essa lei poderia proporcionar aos estudantes um contato muito
maior com esse nicho literário, impulsionando o mercado. Na prática, porém,
isso não ocorre. Em entrevista para a Empresa Brasil de Comunicação (EBC), o
pesquisador da USP André de Godoy Bueno afirma que “apesar de a Lei ter sido
promulgada em 2003, ainda hoje encontramos universidades que não trabalham esse
conteúdo na formação docente”. Na Universidade Estadual de Campinas
(UNICAMP), por exemplo, o Departamento de Teoria Literária, um dos responsáveis
pela licenciatura do curso de letras, contratou uma professora especialista na
área apenas em 2017, 14 anos após a promulgação da lei.
Como observamos, mesmo sendo o
português uma língua com mais de 250 milhões de falantes, estando 80% deles no
Brasil, apenas um livro em língua portuguesa originado de outro país esteve
entre os mais vendidos nos últimos oito anos. Contudo,
fazer com que os romances diversos cheguem ao público brasileiro não é
função apenas das grandes editoras, expandindo seu catálogo e facilitando a
entrada desses livros no mercado brasileiro, mas também um processo de
valorização do leitor brasileiro da sua própria língua, enxergando-a como um
instrumento de conexão entre diferentes culturas que se utilizam dela para se
expressar.
*Por Amanda A.
Farias, Ana Karolina Alves de Oliveira, Ariane G. Monteiro e Lívia Gabrielle
Vieira.

1 comentários
Adorei!
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